domingo, 23 de maio de 2010

Escada para o céu


Sempre tive um certo encantamento por escadas, o que é fácil de se compreender. Nas escadas era onde sempre se davam as lutas de espadas, os beijos ardentes dos amantes, ou onde se descobria lá no alto, no fim da escadaria o esconderijo de ninguém menos que ele: o assustador conde Drácula! Com aquele olhar sedento de sangue que ninguém jamais fará como Christopher Lee.
Nossa casa não tinha escada, era tudo no terreo mesmo, nenhum subterfúgio para as fantasias de um menino que navegava entre os Capitães de Areia, Mandrake, Fantasma, Super homem, Batman, O Principe Valente, Zorro e Tonto, Tio Patinhas, Zé Carioca e alguns livros da Adelaide Carraro.
Um dia a nossa caixa d’agua deu um defeito na bóia e vazava aquele mundaréu de água quando ela enchia. Então meu pai mandou arrumar, e de quebra pediu que construíssem uma escada pra se subir até a caixa d’água, assim qualquer problema seria resolvido por ele mesmo. Meu pai sempre gostou de subir nas árvores e faz isso até hoje aos 83 anos!
Eu mal conseguia dormir direito, imagine só! Uma escada em casa! Eu ia poder subir e descer com minha espada de plástico, ou usando minha capa preta de Drácula feita de tecido do velho guarda chuva de meu pai, a imaginação voava sem limites, nem conseguia definir que herói eu seria primeiro.
Enfim a escada ficou pronta em dois dias, que pra mim foram dois anos! Mas ela estava lá finalmente, “stairway to heaven”! eu me identificaria anos depois com a canção do Led Zeppelin. Quando chegou enfim o dia em que pude explorar a escada de madeira que conduzia até a caixa d’água, mas que para mim era muito mais que isso, era tirar os pés do chão, era ver tudo lá do alto, era dar vazão aos heróis que precisavam de uma escada pra serem completos. De espada em punho, comecei a subir a escada pé ante pé, saboreando cada passo, esperando surgir um inimigo em cada degrau. Até chegar ao topo que era a caixa d’água, ou melhor, a torre do castelo. Ai me sentei no último degrau e fiquei olhando, lá de cima podia ver todo o quintal, a goiabeira, o telhado do armazém, da casa, a igreja que ficava em frente da casa lá do outro lado da rua, bem no meio da praça, o cinema, o pau da gambira, uma enorme gameleira que era palco de todas as negociações possíveis, negócios de gado, de fazendas, bicicletas, frangos e etc. e que foi derrubado anos depois, quando resolveram refazer a praça sob alegação de que numa praça moderna não cabia uma árvore tão grande! O que gerou protestos do povo em geral, porque além de tudo era uma bela árvore, muito frondosa, dava uma generosa sombra, escondia casais de namorados à noite atrás da cumplicidade de seu tronco grosso.
Fiquei ali, vislumbrando o mundo do alto, meu mundo, tão pequeno parecia tão grande aos meus olhos. Agora eu podia ficar de sentinela na minha cidade. Podia avistar de longe qualquer ataque de apaches ensandecidos por escalpos, ou bombardeios de kamikazes determinados a morrer pelo império do sol nascente.
Não sei quanto tempo fiquei ali, olhando tudo, até onde a vista podia alcançar. logo vi que o nosso pé de manga fazia um bela sombra no telhado, e que era um excelente lugar pra ficar deitado lendo meus gibis, que eu acabava deixando lá em cima mesmo dentro de um caixote, agora eu tinha minha biblioteca secreta!
Assim todo dia ao chegar da escola, corria pra trocar o uniforme por uma roupa mais confortável, e subir pro meu esconderijo, onde ficava horas lendo sob a sombra do pé de manga, e onde ficava a salvo do chato do meu irmão mais velho que gostava de mandar. Tinha os cabelos bem louros e olhos claros, o que deveria representar um padrão de beleza, pra todos que o viam, mas pra mim era só uma miniatura de nazista arrogante. Igualzinho aos que eu via no cinema.
Um belo dia eu estava lendo “O último tango em Paris”, que o Aderson me emprestou, ele tinha conseguido esse livro de alguém que tinha trazido de Goiânia. O filme com a história do livro tinha sido proibido no Brasil, eram os reflexos dos anos de chumbo que chegavam até a distante Jussara. É lógico que o que nos levou a querer ler esse livro foi o fato do filme ter sido proibido. É bom ressaltar que na nossa cidade nessa época nem banca de revistas tinha, ou seja nem foto de mulher pelada a gente tinha visto ainda. Pois bem, estava eu compenetrado na leitura do livro, tentando imaginar as formas angulosas da personagem do livro, quando ouvi minha mãe me gritando pra ir comprar alguma coisa. Permaneci em silencio na esperança de que ela imaginasse que eu não estava em casa. E passasse enfim a minha tarefa pro meu irmão. Mas mãe, sabe tudo da gente, até onde a gente se esconde. Não dá pra fugir de uma mãe.
- desce menino! Eu sei que você tá ai em cima! Ainda vai acabar caindo desse telhado, parece macaco! – disse ela já com o timbre da voz já bem zangado. O jeito foi fechar meu livro proibido guarda-lo no caixote, e descer o mais rápido que pudesse pra não apanhar de vara de goiabeira. Comecei a caminhar pelo telhado em direção a caixa d’água, onde ficava a escada pra descer a tempo de não deixar minha mãe ainda mais zangada. Na minha pressa pisei em falso no primeiro degrau de cima e me precipitei num mergulho que aconteceu tão rápido, que só me lembro do rosto batendo numa telha que ficava no chão, onde pingava água quando a caixa transbordava. Minha visão ficou vermelha e não vi mais nada.
Quando acordei estava numa cama do hospital, tinha amassado o nariz por onde tinha sangrado muito, e por pouco não quebrei o pescoço. Quando enfim voltei pra casa dois dias depois, minha escada tinha sido retirada. Lá estava eu com os dois pés no chão outra vez.

As moedas do sesquicentenário

Quando o Brasil completou cento e cinqüenta anos de independência de Portugal, o governo lançou umas moedas comemorativas, que eram bem maiores que as normais e que vinham em um estojo de acrílico, e tinham um valor simbólico de algo em torno de 50 cruzeiros
Não me lembro como, mas minha mãe apareceu com estas moedas lá em casa, não me recordo se comprou, ou se ganhou de alguém. As moedas eram grandes quase o diâmetro de um bracelete de criança.
De cara, fiquei maquinando uma forma de utilizar melhor essas moedas, e ir ao cinema me pareceu a melhor idéia. Aqui é preciso lembrar que pouca gente tinha conhecimento da existência de tais moedas na minha cidade, além é claro do pessoal lá de casa.
A primeira dificuldade seria passar as moedas na bilheteria do cine Santa Lúcia, onde trabalhava uma loura chamada Zizi. Que tempos mais tarde faria a alegria de garotos nas excursões do colégio Dom Bosco, não era preciso muita coisa pra obter os favores sexuais de Zizi, que a esse tempo se aproximava dos seus trinta anos, e pelo seu apetite, demonstrava claramente que já não queria perder mais tempo na vida, o Edy sempre foi o favorito dela, mas a turma toda passou pelas suas prestimosas mãos e tudo o resto. Mas isso é assunto pra uma outra história.
No sábado à noite era grande o movimento na porta do cinema, como não havia missa, a sessão começava mais cedo, eu estava ansioso com as duas moedas sem valor no bolso, sabia que se fosse pego seria encaminhado diretamente ao seu Geraldo Caixeta, ninguém menos que meu pai, e a surra seria coisa certa.
Fiquei por ali olhei os cartazes dos filmes que iriam estreiar nas próximas semanas mas sem conseguir desviar minha atenção da minha maquiavélica intenção, passar moedas falsas na Zizi!
Uma fila começou a se formar na bilheteria, com as duas mãos nos bolsos da calça US Top novinha, me posicionei na fila que andava rápido demais, mais rápido ainda andava meu coração. Até que chegou minha vez, a Zizi me olhou com seus enormes olhos azuis, talvez com fome de menino, mas não foi essa a leitura que fiz do seu olhar. Pra mim ela estava tentando ler meus pensamentos, e até já sabia pela minha cara mal disfarçada de bom garoto, que eu queria engana-la.
- me dá um ingresso? – a voz mal saiu da minha boca, e no meio do burburinho na porta do cinema ela não me ouviu.
- um ingresso? – perguntou a Zizi, como se não fosse obvio, uma pessoa na bilheteria de um cinema querer um ingresso. O que eu haveria de querer? Um pé de alface? Pensei com meu escapulário do Sagrado Coração de Jesus que reprovava minha atitude e parecia queimar no meu peito. Só assenti com a cabeça, nessas alturas a voz estava presa na garganta
Com as mão tremulas retirei a moeda do bolso da calça, e a passei pela abertura da bilheteria. A Zizi a pegou surpresa, olhou atentamente, mas não quis dar a entender que ainda não tinha visto a “nova” moeda, e só comentou com um sorriso de entendida:
- ficaram bonitas estas novas moedas não é? – eu só sacudi a cabeça concordando e respirando aliviado, a Zizi coitada tinha caído no meu golpe. Rapidamente ela me passou o troco, que daria pra ir no cinema mais umas nove vezes! Sem ter que pedir dinheiro pro meu pai, coisa que era muito constrangedora pra um menino que mal abria a boca.
Não me lembro que filme vi naquela noite de sábado, mas o gostinho de vitória por ter enganado a Zizi, rapidamente deu lugar, a um medo que foi crescendo, de ser descoberto principalmente em casa. O que não deveria demorar muito.
Uma semana depois, no almoço de domingo, todos à mesa, começa o almoço e minha mãe olhava seguidamente para um e para outro filho, expressão séria, que raramente fazia nos almoços de domingo, a menos que alguém saísse da linha.
- eu quero falar uma coisa. – disse ela assim do nada. E quando Dª Ilda dizia isso “eu quero falar uma coisa” era encrenca na certa.
- eu comprei duas moedas do sesquicentenário da independência do Brasil, e guardei na cristaleira. Alguém foi lá e pegou. Essas moedas não tem valor algum, e se quem pegou tentar comprar alguma coisa, pode até ser preso. E tem mais, eu já sei quem foi!
Um silencio como denso como um elefante se fez na mesa. Os meninos olhavam um pro outro com cara de assustados. Meu coração disparado quase saia pela boca, tinha sido pego afinal! Ia levar uma surra daquelas! Mas pelo menos ia acabar a ansiedade de ser pego a qualquer momento, que estava me consumindo, muito mais pelo medo da surra, do que de arrependimento devo confessar. Estavam todos de olhos fixos na minha mãe esperando o veredito, menos eu que não ousava fixar o olhar nos seus olhos zangados, já esperando o meu nome ser pronunciado com todas as letras, inclusive o “R” no final, que era como ela fazia quando estava zangada com algum filho, como o nome de quase todos a exceção da Maria e do João, termina com “R”, quando esse “R” era bem acentuado no final do nome era só esperar o castigo.
- foi o Deusimarrr! – engoli em seco, ao ouvir minha mãe dizendo o nome do meu irmão, que de santo nunca teve nada graças a Deus. Eu não podia acreditar, tudo bem que não tinha sido descoberto, mas agora ia carregar o peso da culpa de ver meu irmão apanhar por uma coisa que eu tinha feito. E ainda tinha a outra moeda pra gastar antes de ser apanhado.
- mãe eu juro que não fui eu! – disse Deusimar, entre indignado e apavorado. Já quase chorando.
- eu sei que foi você! – retrucou minha mãe com convicção, - eu vi você olhando muitas vezes para as moedas seu safado!
Como ela podia ter tanta certeza se tinha sido eu? Ela não tinha. Por isso mesmo o Deusimar não foi castigado, minha mãe apenas suspeitava, e esperava obter uma confissão do pequeno gatuno, mas ele nunca confessou uma culpa que não tinha. E o caso das moedas ficou por isso mesmo. E o ladrãozinho das moedas nunca foi descoberto. Até muitos anos depois quando enfim confessei pra minha mãe, e rimos muito disso mas, levei meu puxão de orelhas só pra matar a saudade.
O moleque daqueles tempos, seguiu gastando o dinheiro resultante da troca das duas moedas sem valor, indo ao cinema por semanas seguidas. Nunca me orgulhei disso, mas nunca nada vai me pagar o gosto bom de ir ao cine Santa Lucia nos sábados e domingos. Viajar no tempo e no espaço, empunhar uma espada, cavalgar um cavalo pampa de apache empunhando uma machadinha, ou rastejar com suor escorrendo pelo rosto empunhando um fuzil nos campos de batalha acertando nazistas. Ou ainda beijando os lábios de Claudia Cardinale, no final do filme quando tudo dá certo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Berenice


A primeira vez que vi Berenice, foi antes da sineta tocar anunciando o inicio da aula. O cabelo castanho muito liso, cortado rente bem acima do ombro, com uma franja que emoldurava o rosto branco coberto de sardas. Como era aluna nova, ao invés do tradicional uniforme saia azul marinho e blusa branca com o distintivo do colégio, e uma gravatinha azul com umas listras que indicavam a série, ela usava um vestido branco estampado com motivos florais pequenininhos de várias cores, e uma sandália de couro branca. Não pude deixar de olhar, nunca antes tinha olhado assim pra uma menina, menina pra mim até aquele dia só servia pra ter os cabelos puxados, e os objetos escolares escondidos, pro deleite dos meninos. Mas alguma coisa aconteceu quando vi Berenice. Como eu me sentava sozinho na minha carteira, e eram carteiras onde se sentavam dois alunos. A professora colocou Berenice pra se sentar comigo, o que foi motivo de muita risada por parte dos meus colegas de traquinagens. Mas estranhamente isso não me afetou muito, era a primeira pessoa vinda de uma cidade grande que eu conhecia. E eu estava gostando daquilo não só pela novidade, a pele branca e as sardas, eu só tinha visto no cinema, e o modo de falar dela toda educada, cheia de “por favores”, “com licenças” e “desculpes” não eram expressões comuns nas meninas que conhecia e com quem só queria brigar. A partir daí eu vivia uma situação incômoda de ser amigo de uma menina, o que era constrangedor do ponto de vista dos meninos. Mas a aquela altura eu não parecia me importar muito.
Um belo dia à tarde eu estava em casa com os dedos e a cara toda lambuzados de comer jaca, que alguém tinha trazido, quando Berenice chega sem avisar. Disse que tinha ido me pedir um caderno emprestado pra por a matéria em dia, eu mal consegui falar, com a boca pregando com a cola da jaca. Nossa amizade acabou virando mesmo só amizade. No final do ano Berenice voltou pra cidade grande. E eu voltei a ser o mesmo moleque de sempre.

A Velha Pic Up

O barulho repetitivo do limpador de para brisas, é a única música que ouço com exceção do ronco quase inaudível do motor do carro. A chuva que cai é leve e rala, mas já obriga a tomar mais cuidado com a estrada. Mais alguns minutos e chego ao frigorífico, são 03:25 h da manhã, vai demorar muito pro sol nascer. Em momentos assim as únicas companhias são os meus pensamentos, lembranças, sonhos, coisas comuns em quem acabou de se levantar da cama, e ainda tem sono pra mais umas quatro ou 5 horas!
Sempre tomo umas duas xícaras grandes de café, daquelas de chá, com duas fatias de pão integral recheado com queijo branco ou mussarela. Muito mais pra ficar acordado do que por fome, não dá pra sentir fome numa hora em que só se quer dormir mais um pouco e por horas.
Termino o meu café da madrugada, lavo a xícara, sempre lavo as coisas assim que acabo de usar, é deprimente entrar na cozinha e ver a pia cheia de louças sujas. Apago a luz da cozinha, fecho a porta e dou uma boa olhada pro céu, é um passatempo característico de notívagos imagino eu, olhar pro céu a noite, no meu caso específico, é pra procurar a lua, a posição dela sempre me dá uma noção das horas. Mas é claro que sei que horas são, porém é que a cada noite a lua ta com uma cara diferente.
Hoje é dia de pouco trabalho no frigorífico, só abateram 52 cabeças. Volto pra casa, e uma música não sai da minha cabeça, “i can’t get no... satifaction...” é uma música bem antiga dos Stones. A primeira vez que a ouvi eu devia ter uns nove ou 10 anos no máximo, nessa idade nunca temos muita noção da passagem do tempo. Eu ouvi essa canção no rádio, muitas vezes, porque nessa época, na minha cidade, era só o que tínhamos de contato com o mundo. O bom e velho rádio. Não havia tv, nem revistas muito menos banca de revistas, só o rádio. Havia o Cine Sta Lúcia, com bancos compridos de madeira iguais aos bancos de igreja, que exibia filmes na sexta, sábado e domingo quando sempre tinha matinê, foi lá que eu vi: Ben Hur, Robim Hood, Carmem, todos os filmes contando a história de Cristo, O gordo e o magro, O ladrão de Bagdá e centenas de outros filmes que nunca vou esquecer. E ai era “um tal” de a meninada sair pelas ruas que nem eram asfaltadas, brincado de acordo com o filme exibido no fim de semana, podia ser um bang bang com índios apaches ferozes, podia ser um capa e espada com piratas ou de Hércules e assim por diante.
Me lembro mais dos dias chuvosos, não sei porque, mas são as melhores lembranças da minha infância, talvez porque os dias chuvosos têm cheiro. Sempre achei bonito o céu nublado e carregado de nuvens escuras prontas pra inundar as ruas formando enxurradas que aproveitávamos pra usar como rios caudalosos pros nossos barquinhos de papel que fazíamos com folhas de cadernos das aulas de matemática era a ciência virando poesia... E lá ia rua abaixo acompanhado o naufrágio iminente dos barquinhos de papel, apostando em qual ia afundar primeiro. Os pés descalços cheios de lama e alegria.
Hoje sei que a nossa casa não era tão grande assim, mas naquela época eu a achava enorme, era um castelo seguro intransponível muito bem guardado pelo nosso cão pastor que por falta de acertar um nome mais digno acabou sendo chamado de Tiu que é o mesmo que chamar um menino de garoto. Apesar do portão fechado ele saia pra rua quando bem entendia, pulando o muro, e dando o seu passeio na rua, ou quando pulava na carroceria da camionete do meu pai e ia pra fazenda com ele. Não havia quem o tirasse de lá.
Era costume nessa época a prefeitura envenenar os cães vadios, como forma de diminuir a população. E foi numa dessas incursões que o Tiu acabou morrendo envenenado. Foi o meu primeiro contato com a morte.
Um dia meu pai apareceu com uma novidade: uma radiola, que era uma espécie de móvel com pezinhos bem finos, e revestida de madeira envernizada. Tinha rádio e toca discos. Onde se podia colocar vários discos empilhados, toda automática. Pra mim foi paixão à primeira vista, poder ouvir música sem o chiado do rádio. Junto com ela meu pai comprou um monte de discos, todos de música caipira, coisas como, Pedro Bento e Zé da Estrada, Zillo e Zallo, Caçula e Marinheiro, e muitos outros, eram uns dez discos mais ou menos, e a família toda passava muito tempo ali de frente pra radiola que ocupava um canto inteiro da sala, tocando músicas que eu acabava decorando a letra e cantando junto baixinho. Rock mesmo só fui conhecer muito tempo depois, quando meu irmão mais velho foi pra Goiânia fazer o segundo grau que não existia na nossa cidade. Nas férias ele veio trazendo uma radiola portátil que chamavam de pic up, achei o nome interessantíssimo. Junto com a tal da pic up ele trouxe dois lp’s que marcaram a minha passagem da infância pra adolescência, o Rubber Soul dos Beatles e a trilha sonora do filme “A primeira noite de um homem” que era toda de Simon e Garfunkel, havia também um compacto dos Beatles, com duas músicas de cada lado, embora tenha ouvido durante muito tempo música caipira, na radiolona nave-mãe da sala, a minha identificação com a sonoridade e melodia dos Beatles foi uma coisa instantânea, como eu ouvia esse disco! Às vezes fazíamos pic nic com a turma do colégio em alguma fazenda, de preferência com represa pra turma nadar a vontade, eu sempre levava a pic up que acabei herdando de meu irmão não me lembro bem como. O problema era comprar pilhas pra ela, eram oito pilhas grandes, e isso na época custava caro pra um garoto como eu, que já amava os Beatles e sempre cantarolava uma canção dos Roling Stones. O grande problema de levar a pic up pros pic nics é que a maioria do pessoal embora achasse bacana a pic up, não queria muito ouvir os Beatles. Então eu me sentava à sombra de alguma árvore sozinho, (nunca gostei muito de nadar mesmo) e ficava ali esculpindo nuvens e ouvindo Beatles, virava o disco e depois ouvia de novo, até a hora de ir embora, nessa época não tinha grandes amigos, só alguns poucos colegas de sala, que mais me aborreciam do que qualquer outra coisa.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A mulher que amo

atrás do óculos de professora
está a mulher que amo
a pele branca da mulher que amo
sabe o tamanho do meu beijo
o cheiro da mulher que amo
chove na minha saudade
a mulher que eu amo tanto
tem os olhos molhados de rir
a mulher de pele branca
tem todos os meus desejos
no seu olhar molhado
a mulher que amo
sabe de todos os meus medos
de todos os meus anseios
a mulher que amo
molha minha coxa com seu gozo
a mulher que amo
tem o sorriso mais lindo que já vi
a mulher que amo
transborda meu desejo
e me afoga de felicidade.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O roubo das bombinhas


A sala da nossa casa tinha uma porta que dava acesso ao armazém, e por onde eu muitas vezes me esgueirava pra roubar coisas como balas, bolachas ou um lápis novo. Tinha muito medo de meu pai, e tinha minhas razões pra isso, ele não era de muita conversa, se saíamos da linha, a surra era certa.
Junho estava chegando e junto com ele festas juninas, quadrilha nas escolas, fogueira, bombinhas, foguetes, pés-de-moleque e outras coisas. Pela tarde eu vi chegar um carregamento de fogos pra serem vendidos, e havia uns sacos de papel, do tamanho de um saco de pipoca com bombinhas, e isso me deixou inquieto, eu precisava de um saquinho daquele, só um era mais que suficiente, pra fazer uma gracinha com a molecada.
Nesse dia tomei banho mais cedo e fiquei de campana na sala esperando as coisas se acalmarem em casa, o armazém foi fechado os balconistas todos foram embora, e meu pai entrou em casa pra tomar o seu banho, e eu acompanhando pacientemente todos os movimentos sentadinho ali no sofá grande da sala.
Então quando tudo se acalmou, me levantei cuidadosamente e abri a porta da sala que dava pro armazém e entrei, fui direto onde estavam as bombinhas. Peguei um pacote, a facilidade era tanta que quase peguei dois, mas me contive a tempo, precisava sair dali o quanto antes com a prova do meu crime.
Quando abri a porta pra retornar pra sala e assim alcançar a porta que dava pro longo corredor que dava no portão da rua, dou de cara com minha mãe parada na porta do quarto.
- O que é isso menino? O que você está fazendo com esse pacote?
Não me lembro de ter pensado em nada na hora, só me ocorreu fugir e pra bem longe dali. Então num impulso sai pela porta que dava pro corredor numa carreira cheia de medo e arrependimento .
As ruas estavam cheias de gente, haviam barraquinhas na rua que descia da praça da matriz, e passava em frente à casa de minha vó. Mas não reparei em nada disso, meu coração batia forte, não havia muito o que fazer agora, eu tinha sido pego, que vergonha meu Deus! Fora a surra que sem dúvida nenhuma ia levar...
Ia devagar, desviando das pessoas, a alegria havia se esvaído, no lugar dela só o pânico. Mesmo no meio do burburinho de gente e do serviço de alto falante da igreja, podia ouvir meu coração batendo forte. A voz da minha mãe ecoava na minha cabeça,. Entrei num bar que havia do outro lado da rua de casa, e fiquei de pé apoiado numa mesa, tentando encontrar uma forma de diminuir o meu delito.
A essa altura meu pai já sabia da minha façanha, escapar da surra não havia como, eu tinha que voltar pra casa uma hora, ia fugir pra onde?. O saquinho de bombinhas debaixo do braço parecia me queimar as mãos, não há sensação pior que ser pego fazendo uma coisa errada. Mas eu não tive alternativa, meu pai nunca ia me dar um saco de bombinhas, ele temia que a gente perdesse um dedo soltando bombinhas, e eu precisava das bombinhas todo mundo solta bombinhas nas festas juninas e agora? Isso não ia de forma alguma justificar o meu roubo. Ainda mais de bombinhas, uma coisa proibida lá em casa. Não sei quanto tempo fiquei ali parado, trêmulo, cabisbaixo, pensando mil coisas ao mesmo tempo, acabei me esquecendo de me esconder melhor, ou de ir pra mais longe de casa, mas a culpa me manteve ali paralisado tremendo, como se quisesse ser pego, como se ser pego com mais facilidade abrandaria a ira de meu pai.
Meus pensamentos foram cortados por dois dedos firmes que agarraram a borda superior da minha orelha direita. Eu conhecia aquele toque, era meu pai, que sem dizer uma palavra foi me conduzindo assim pela orelha até em casa, passando por entre a multidão. As barraquinhas, as vozes das pessoas os gritos das crianças agora eram sons distantes, eu só conseguia ouvir as batidas do meu coração, será que não ter sequer aberto o saco de bombinhas, iria diminuir o meu castigo? Será que fazer uma cara de arrependido ia comover meu pai?
Quando entramos na sala havia visitas, mas eram minha tia irmã de minha mãe com as filhas chatas, isso não ia aliviar a minha barra, meu pai me segurou pelo braço ali mesmo na sala, e me encheu de palmadas na bunda, na frente de todo mundo. Acabava pra mim a alegria do São João daquele ano.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Beat

A solidão passa bem
apesar da hemorragia,
hoje ela saiu, usando um par de tênis velho e sujo.
Zanzando entre goles de cerveja e solos de guitarra,
à tarde trocou o band-aid do coração
enquanto tentava convencer a saudade(já de porre)
que é ótimo comer bolo de cenoura,
enquanto se curte literatura beat.
À noite à solidão tenta se matar
ingerindo dúzias de estrelas.
Depois cai na real
e dorme languidamente
na macia língua da noite.