domingo, 23 de maio de 2010

As moedas do sesquicentenário

Quando o Brasil completou cento e cinqüenta anos de independência de Portugal, o governo lançou umas moedas comemorativas, que eram bem maiores que as normais e que vinham em um estojo de acrílico, e tinham um valor simbólico de algo em torno de 50 cruzeiros
Não me lembro como, mas minha mãe apareceu com estas moedas lá em casa, não me recordo se comprou, ou se ganhou de alguém. As moedas eram grandes quase o diâmetro de um bracelete de criança.
De cara, fiquei maquinando uma forma de utilizar melhor essas moedas, e ir ao cinema me pareceu a melhor idéia. Aqui é preciso lembrar que pouca gente tinha conhecimento da existência de tais moedas na minha cidade, além é claro do pessoal lá de casa.
A primeira dificuldade seria passar as moedas na bilheteria do cine Santa Lúcia, onde trabalhava uma loura chamada Zizi. Que tempos mais tarde faria a alegria de garotos nas excursões do colégio Dom Bosco, não era preciso muita coisa pra obter os favores sexuais de Zizi, que a esse tempo se aproximava dos seus trinta anos, e pelo seu apetite, demonstrava claramente que já não queria perder mais tempo na vida, o Edy sempre foi o favorito dela, mas a turma toda passou pelas suas prestimosas mãos e tudo o resto. Mas isso é assunto pra uma outra história.
No sábado à noite era grande o movimento na porta do cinema, como não havia missa, a sessão começava mais cedo, eu estava ansioso com as duas moedas sem valor no bolso, sabia que se fosse pego seria encaminhado diretamente ao seu Geraldo Caixeta, ninguém menos que meu pai, e a surra seria coisa certa.
Fiquei por ali olhei os cartazes dos filmes que iriam estreiar nas próximas semanas mas sem conseguir desviar minha atenção da minha maquiavélica intenção, passar moedas falsas na Zizi!
Uma fila começou a se formar na bilheteria, com as duas mãos nos bolsos da calça US Top novinha, me posicionei na fila que andava rápido demais, mais rápido ainda andava meu coração. Até que chegou minha vez, a Zizi me olhou com seus enormes olhos azuis, talvez com fome de menino, mas não foi essa a leitura que fiz do seu olhar. Pra mim ela estava tentando ler meus pensamentos, e até já sabia pela minha cara mal disfarçada de bom garoto, que eu queria engana-la.
- me dá um ingresso? – a voz mal saiu da minha boca, e no meio do burburinho na porta do cinema ela não me ouviu.
- um ingresso? – perguntou a Zizi, como se não fosse obvio, uma pessoa na bilheteria de um cinema querer um ingresso. O que eu haveria de querer? Um pé de alface? Pensei com meu escapulário do Sagrado Coração de Jesus que reprovava minha atitude e parecia queimar no meu peito. Só assenti com a cabeça, nessas alturas a voz estava presa na garganta
Com as mão tremulas retirei a moeda do bolso da calça, e a passei pela abertura da bilheteria. A Zizi a pegou surpresa, olhou atentamente, mas não quis dar a entender que ainda não tinha visto a “nova” moeda, e só comentou com um sorriso de entendida:
- ficaram bonitas estas novas moedas não é? – eu só sacudi a cabeça concordando e respirando aliviado, a Zizi coitada tinha caído no meu golpe. Rapidamente ela me passou o troco, que daria pra ir no cinema mais umas nove vezes! Sem ter que pedir dinheiro pro meu pai, coisa que era muito constrangedora pra um menino que mal abria a boca.
Não me lembro que filme vi naquela noite de sábado, mas o gostinho de vitória por ter enganado a Zizi, rapidamente deu lugar, a um medo que foi crescendo, de ser descoberto principalmente em casa. O que não deveria demorar muito.
Uma semana depois, no almoço de domingo, todos à mesa, começa o almoço e minha mãe olhava seguidamente para um e para outro filho, expressão séria, que raramente fazia nos almoços de domingo, a menos que alguém saísse da linha.
- eu quero falar uma coisa. – disse ela assim do nada. E quando Dª Ilda dizia isso “eu quero falar uma coisa” era encrenca na certa.
- eu comprei duas moedas do sesquicentenário da independência do Brasil, e guardei na cristaleira. Alguém foi lá e pegou. Essas moedas não tem valor algum, e se quem pegou tentar comprar alguma coisa, pode até ser preso. E tem mais, eu já sei quem foi!
Um silencio como denso como um elefante se fez na mesa. Os meninos olhavam um pro outro com cara de assustados. Meu coração disparado quase saia pela boca, tinha sido pego afinal! Ia levar uma surra daquelas! Mas pelo menos ia acabar a ansiedade de ser pego a qualquer momento, que estava me consumindo, muito mais pelo medo da surra, do que de arrependimento devo confessar. Estavam todos de olhos fixos na minha mãe esperando o veredito, menos eu que não ousava fixar o olhar nos seus olhos zangados, já esperando o meu nome ser pronunciado com todas as letras, inclusive o “R” no final, que era como ela fazia quando estava zangada com algum filho, como o nome de quase todos a exceção da Maria e do João, termina com “R”, quando esse “R” era bem acentuado no final do nome era só esperar o castigo.
- foi o Deusimarrr! – engoli em seco, ao ouvir minha mãe dizendo o nome do meu irmão, que de santo nunca teve nada graças a Deus. Eu não podia acreditar, tudo bem que não tinha sido descoberto, mas agora ia carregar o peso da culpa de ver meu irmão apanhar por uma coisa que eu tinha feito. E ainda tinha a outra moeda pra gastar antes de ser apanhado.
- mãe eu juro que não fui eu! – disse Deusimar, entre indignado e apavorado. Já quase chorando.
- eu sei que foi você! – retrucou minha mãe com convicção, - eu vi você olhando muitas vezes para as moedas seu safado!
Como ela podia ter tanta certeza se tinha sido eu? Ela não tinha. Por isso mesmo o Deusimar não foi castigado, minha mãe apenas suspeitava, e esperava obter uma confissão do pequeno gatuno, mas ele nunca confessou uma culpa que não tinha. E o caso das moedas ficou por isso mesmo. E o ladrãozinho das moedas nunca foi descoberto. Até muitos anos depois quando enfim confessei pra minha mãe, e rimos muito disso mas, levei meu puxão de orelhas só pra matar a saudade.
O moleque daqueles tempos, seguiu gastando o dinheiro resultante da troca das duas moedas sem valor, indo ao cinema por semanas seguidas. Nunca me orgulhei disso, mas nunca nada vai me pagar o gosto bom de ir ao cine Santa Lucia nos sábados e domingos. Viajar no tempo e no espaço, empunhar uma espada, cavalgar um cavalo pampa de apache empunhando uma machadinha, ou rastejar com suor escorrendo pelo rosto empunhando um fuzil nos campos de batalha acertando nazistas. Ou ainda beijando os lábios de Claudia Cardinale, no final do filme quando tudo dá certo.

2 comentários:

  1. Caro amigo Cumpadre! Esta tua história me fez lembrar da minha história como vendedor de alho. O roteiro é o mesmo: Usar de esperteza com os pais. Qualquer dia escrevo ela.

    Parabéns!! Estou esperando outras!!

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  2. Que história deliciosa!

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